NINGUÉM  É GARANTE DE NADA NESTE PAÍS 

Quantas vezes, se falou da paz e da estabilidade na Guiné-Bissau? Em quantas gargantas se soltaram garantias de que “a paz veio para ficar”, ou que “ninguém nunca mais se levantará com armas para perturbar este povo” ou, ainda, que “injustiças e impunidades acabaram”?  

Se forem lançadas essas questões na praça pública, certamente o inquiridor ficaria surpreendido com as respostas que obteria. Mas, inquestionavelmente, algumas respostas talvez se aproximassem destas: “nenhuma garantia é garantia na Guiné-Bissau”; “ninguém pode dar garantia de nada”; “ninguém pode servir de garante de nada neste país” ou, “ninguém é o que aparenta nesta terra”.

Infelizmente, os factos e acontecimentos registados na Guiné-Bissau ao longo da sua existência como país independente revelam que NINGUÉM pode garantir nada, nem sequer em termos da sua segurança pessoal, muito menos do regime e do sistema em vigente, e, muito menos ainda da segurança, paz e estabilidade dos cidadãos. Os exemplos são vários: o golpe de estado de 14 de Novembro, revelou que, afinal, o regime de então não era tão seguro quanto se julgava. Anos depois, em 1999, a deposição do protagonista do Movimento Reajustador de 1980, por uma Junta Militar, viria a provar que, afinal, ele mesmo não tinha nem os poderes nem a dimensão que se supunha, ou seja, não era o garante da tranquilidade que serviria de base para que o país se projectasse para o futuro nas condições ideais que permitissem a implementação de todas as facetas do desenvolvimento em bases sólidas. Posteriormente, o fim violento do líder da Junta Militar, primeiro, e as mortes de personagens ligadas às mais altas esferas da sociedade castrense, que se seguiriam culminando em 2009 com os assassínios de triste memória do Presidente da República, chefe do estado-maior general das Forças Armadas e deputados da Nação… e o levantamento militar do 1º de Abril de 2010, vieram a provar, em conjunto, que NINGUÉM é garante do que quer que seja na Guiné-Bissau. Mas, sobretudo, provaram que o trabalho de fundo que devia ser feito, no capítulo da pacificação dos espíritos e da organização do aparelho do Estado, ainda resta por fazer. Esses acontecimentos têm revelado, que não serão com “governos de unidade nacional” ou governos “pintados” de cores étnicas que esses problemas de fundo serão resolvidos. Sendo o governo limitado no espaço e no tempo, apenas a organização eficiente do aparelho do estado poderá garantir, efectivamente, que haja continuidade em todas as esferas para que o país saia não só da desorganização em que se encontra, mas também do ciclo vicioso do eterno recomeço na vã tentativa de encontrar as causas e as consequências dos conflitos e sobressaltos havidos pondo de lado o presente e não contando com o futuro com todos os corolários possíveis. Tão pouco serão com projectos de reconciliação (de largos milhares de dólares) ornamentados com nomes pomposos, ao estilo que a comunidade internacional gosta de ler, ver ou ouvir, mas, na realidade, incapazes de produzir quaisquer resultados susceptíveis de, no mínimo, criar condições para mudanças dos comportamentos menos desejáveis para que a sociedade possa viver, finalmente, em paz tendo desígnios bem definidos e sendo dirigida, como Cabral dizia, “pelos melhores filhos da nossa terra”.