A falta de reformas cruciais poderá impedir o
progresso da Guiné-Bissau, avisou recentemente o secretário-geral das Nações
Unidas, Ban Ki-moon.
Durante os últimos meses assistiu-se na
Guiné-Bissau a crescentes tensões políticas e de segurança, reconheceu a ONU,
num novo relatório.
O sequestro do primeiro-ministro Carlos Gomes
Júnior e do chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, almirante Zamora
Induta, no dia 1 de Abril, foi “um grave revés” no processo para consolidar a
estabilidade e encetar reformas essenciais, prosseguiu o secretário-geral.
Para além disso, a violação na mesma data das
instalações da ONU, por elementos das Forças Armadas, é “inaceitável e
condenável”, no entender de Ban Ki-moon.
As tropas sublevadas foram lá buscar um antigo
chefe do Estado-Maior da Armada, o contra-almirante Bubo Na Tchuto, que andava
fugido à justiça e ali se refugiara, tendo pouco depois disso sendo indiciado
pelos Estados Unidos como um dos narcotraficantes existentes no país.
A ONU pediu agora às autoridades guineenses que
cumpram com a sua obrigação de proteger as instalações, o pessoal e os bens da
organização.
No entender deste relatório, todo o progresso que
estava a ser feito pelo Governo do PAIGC, liderado por Carlos Gomes Júnior, no
sentido de se fortalecerem as instituições democráticas e de se avançar com
reformas, poderá ser comprometido se não se verificarem alterações drásticas mo
panorama guineense.
Ban Ki-moon deseja que o Presidente Malam Bacai
Sanhá, o primeiro-ministro e outras pessoas em lugares de chefia tomem acções
concretas no sentido de se consolidarem as estruturas do Estado.
É considerado essencial, neste documento, que as
autoridades civis e as militares cheguem a acordo sobre uma solução rápida e
aceitável do problemático assunto de quem é que na verdade deverá mandar nas
Forças Armadas, que se têm manifestando renitentes em se submeter à autoridade
civil.
O relatório do secretário-geral da ONU insiste no
pleno respeito pela separação de poderes, de modo que as instituições funcionem
de forma adequada, sem estarem permanentemente sujeitas às movimentações de
alguns militares.
A Guiné-Bissau, o Burundi, a Serra Leoa e a
República Centro-Africana são consideradas pelas Nações Unidas países que
saíram recentemente de conflitos e que necessitam de uma transição irreversível
da guerra para uma paz sustentável.
Por outro lado, neste relatório recentemente
divulgado, Ban Ki-moon também fala da influência crescente do crime
transnacional, incluindo o narcotráfico, em alguns sectores das Forças Armadas
e do próprio aparelho do Estado guineense, bem como na economia. E diz que isso
compromete ainda mais a fragilidade de um país já por si tão fraco.
“A reforma do sector da segurança é uma condição
sine qua non para a estabilização”, insiste o mais alto funcionário da ONU,
segundo o qual será porém impossível reestruturar as Forças Armadas se acaso
não se tomar uma atitude muito dura em relação ao crime organizado e ao
narcotráfico, que nos últimos anos tem minado todo o país.
A tarefa, segundo ele, deverá ser encarada a nível
nacional, bilateral e multilateral, pois que se trata de um problema que afecta
toda a sub-região. Ou seja, a África Ocidental, desde Cabo Verde e o Senegal
até à Nigéria.