Um gel vaginal microbicida diminuiu de forma
significativa o número de mulheres que contraem o HIV através de parceiros
infectados, numa experiência efectuada na África do Sul.
O gel contém um anti-retroviral que reduz os índices
de infecção em 50% depois de um ano de uso e em 39% depois de dois anos e meio,
afirmam os investigadores.
A principal conselheira científica da ONUSIDA, a
Doutora Catherine Hankins, disse à BBC que este é o primeiro gel
especificamente concebido para combater o vírus HIV:
"Este gel é o primeiro que contém um
anti-retroviral contra o HIV e portanto é específico para este vírus. É um avanço
sem precedentes obter este tipo de resultados."
Se os resultados forem confirmados será a primeira
vez que um gel microbicida é eficaz.
Este gel pode ser uma defesa para mulheres cujos
parceiros se recusam a usar preservativo.
Resultados promissores
Novas formas de diminuir a propagação do HIV são
desesperadamente necessárias, em particular na África sub-Sahariana, onde perto
de 60% dos infectados com o vírus são mulheres.
Muitas vezes, as mulheres são forçadas a ter sexo
de uma forma que não é segura e a nível biológico são mais vulneráveis à infecção
do HIV do que os homens, o que torna o gel numa opção atractiva.
Agências da da ONU mostraram-se contentes com os
resultados e vão realizar consultas de especialistas na África do Sul já no próximo
mês de modo a discutir os próximos passos a serem dados no desenvolvimento
deste produto.
Os resultados de um estudo de três anos foi completado
pelo Centro para o Programa de Investigação sobre a Sida na África do Sul.
E estão a ser apresentados na Conferência
Internacional sobre a sida que está a ter lugar em Viena, na Áustria, depois de
terem sido publicados esta segunda-feira na revista norte-americana Science.
Um grupo de manifestantes ocupou o palco da conferência
apelando ao apoio do filantropo Bill Gates para o que designam como o
"imposto Robin Hood".
Este seria um imposto aplicável em transacções
financeiras globais de modo a financiar iniciativas de saúde. Mas Gates
mostrou-se reticente:
"Sabemos que muitos especialistas consideram
que este imposto não funciona na prática, pessoas que são peritas em sistemas
financeiros não acharam que pudesse resultar."
Prevenção
De qualquer forma, o uso do preservativo é a melhor
forma de minimizar o risco de infecção durante o sexo.
Mas esta não é uma opção para muitas mulheres em
todo o mundo, que consideram difícil insistir que um homem tome as devidas
precauções.
Um gel eficaz pode finalmente dar às mulheres a
oportunidade de se protegerem a si próprias da infecção e assumirem o controlo
da sua própria saúde sexual.
No entanto, várias experiências anteriores
produziram resultados desanimadores e até mesmo este último teste, apesar de
ser o mais promissor, ainda está longe de ser uma forma de protecção
devidamente segura.
Mas mesmo assim, um gel acessível às mulheres de
alguns dos países mais pobres do mundo, onde é mais necessário, pode ajudar a
transformar as suas vidas.
O gel foi considerado tanto seguro como aceitável
quando usado uma vez nas 12 horas que antecederam o sexo e outra vez nas 12
horas que se seguiram, por mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os
40 anos.
Salim Abdool Karim, um dos investigadores, disse
aos jornalistas em Viena que 889 mulheres participaram na experiência conduzida
na cidade costeira de Durban e numa aldeia remota.
Estudo
Elas também receberam preservativos e
aconselhamento sobre as doenças sexualmente transmissíveis e fizeram o teste do
VIH uma vez por mês.
As mulheres que usaram o gel de uma forma
consistente foram as menos infectadas.
Os investigadores deram conta que o seu uso também
demonstrou uma redução significativa do herpes genital, uma infecção
sexualmente transmissível comum, que por si só aumenta o risco de infecção do
HIV.
A ONU Sida salientou que perto de 20 anos de
pesquisa foram dedicados aos microbicidas que podem ser controlados pela
mulher, de uma forma independente do seu parceiro.
"Estamos a dar esperança às mulheres"
disse Michel Sidibe, Director Executivo da ONUSIDA.
A directora da Organização Mundial de Saúde,
Margaret Chan, também elogiou os resultados ao afirmar que assim que forem
provados eficazes, a OMS vai trabalhar com diferentes países para acelerar o
acesso a estes produtos.
Ao falar também na conferência sobre a sida em
Viena, o antigo Presidente norte-americano, Bill Clinton, chamou a atenção para
a necessidade de mais trabalhadores do sector da saúde em África:
"Se quisermos desenvolver os sistemas de saúde
e o acesso ao tratamento, precisamos de ter mais trabalhadores qualificados no
sector da saúde."
In BBC