Insisto em assumir a nossa capital como das mais
bonitas cidades do mundo. Nada de paradoxal. Ela está cheia de gente que
detesta coisas más, feias e mal feitas. Dessa, a maioria está a construir,
embelezar e plantar um futuro diferente, enquanto a outra parte de residentes
ainda está naquela de discutir pessoas, não factos e muito menos ideias, em in
ou on. Ensina a mais que milenar cultura chinesa que “ O medíocre discute
pessoas. O comum discute factos, o sábio discute ideias”.
Deve ser por isso
que, nem nos apercebemos, ao menos, de factos que fazem do guineense alguém com
mais que razão para ter uma mais que elevada auto-estima. O Guineense demonstra
a sua auto-estima com classe, elegância, no seu falar cortês, inteligente e
metafórico, porque o comum dele sabe ler e entender factos. Em conversa com uma
tia minha, registei uma bela e profunda revelação do facto crítico que é a
governação na nossa terra. Dizia ela que o nosso mal, reside no facto de que,
no nosso mar político, “a pedra bóia e o papel se afunda”. Esta definição é
nobre proposta de debate de ideias para que o papel bóie e a pedra ocupe o seu
lugar natural, sem ondas confusas ou confusionistas. Dela tenho partido para
observar e sugerir a discussão de inúmeros factos de que está prenhe a praça
física de Bissau.
Pouco depois do 7 de Junho, fui a o quartel da
Amura e dei com um enorme caixote de madeira apodrecida, do qual se via a
estátua de Amilcar Cabral, sem uma perna, de costas deitada, com limo e lama da
cara ao pé que lhe sobrava. Esmagado por tão brutal sentido metafórico da real
imagem do país que o que tinha diante de mim oferecia, o único gesto de que fui
capaz no momento, foi o de olhar para o mausoléu e assegurar ao Amilcar que
mesmo aí estendido, estava e estará sempre acima deles. E que, se conhecessem e
soubessem, ler e discutir as suas ideias, seriam dirigentes que não se matariam
uns aos outros por não conseguirem situar-se fora da imprópria discussão de
pessoas, em que impera a intriga e calúnia.
Sem desânimo, a cada 20 de Janeiro passamos ao lado
do caixote e fomos levar flores e lembranças a Amilcar e seus companheiros, até
que no ano passado, entenderam colocar o monumento na rotunda do aeroporto. O
lugar escolhido era arborizado, logo, lindo. À entrada de Bissau. Venha-se do
interior ou do estrangeiro, tem-se que por ele passar, como devia ser
imprescindível aos governantes o entender político de Cabral, deste país e suas
inquietudes. Mas, quando nos damos conta que para colocarem a estatua de
Amilcar Cabral, o primeiro que fizeram foi tornar feio o local, arrancando pela
raiz as dezenas de enormes e verde-claras arvores que ofereciam vida e
magnifica sombra, para se estar, pensar, namorar, contemplar, a toda a hora,
junto a Amilcar; somos levados, a pensar que ontem, as pessoas ou pessoa que,
quiseram ou quis fazer do monumento lixo, assim como, hoje, as que pensaram ou
a que pensou em apenas colocar o monumento num lugar qualquer, com uma placa a
dizer à história que foram elas ou foi ela, que, finalmente, erigiram ou erigiu
o monumento, em nada divergem. De qualquer dos factos, entende-se que se pensou
mais nos dividendos pessoais que na real dimensão do Herói bi-nacional, ou
seja, discutiu-se mais a pessoa. Na rotunda do aeroporto Osvaldo Vieira, o
memorial a Amilcar, à semelhança do caixote na Amura, também exprime forte
metáfora no presente. Não deixaram uma viva árvore que pudesse fazer sombra a
ervas daninhas. Não há um único banco de jardim onde se possa sentar e pensar
com o concidadão, factos e ideias. Não há uma única lâmpada eléctrica que
permita vislumbrar o monumento na outra metade do dia, onde se criam cobras e
lagartos para combater pessoas e não factos negativos discutindo ideias.
Nesta época de chuvas e de crise, por ironia do
destino, á volta do monumento a Amilcar, só cresce capim e cada dia se escurece
mais a placa.
Que quererá dizer o pé levantado do Cabral?
Proponho ao comum dos guineenses a discussão deste facto, sem deixar de ter em
conta que, “ A minha preocupação não está em ser coerente com as minhas
afirmações anteriores sobre determinado problema, mas em ser coerente com a
verdade.” (Gandhi).
Ernesto Dabo